Autor: Carlos Martí
18 X 26 cm – 72 págs.
ISBN 978-65-995479-9-7
Montagem manual
100 exemplares assinados pelo autor
Nevoeiro, série de poemas que convida o leitor para o percurso místico, para além do idílio — Tateando o véu profundo da neblina, / Esquecido, sem morte e sem alento — é um estudo aprofundado e vivo sobre as formas não mais praticadas da poesia, das cantigas trovadorescas ao alexandrino. Quando encontrou Augusto de Campos, Martí perguntou ao poeta se seria possível dizer coisas novas com formas antigas. No verso livre, essa indagação se sobressai com o jogo da polissemia, — O bramido escatológico/ Perder-se-á sem ser ouvido;/ Será o último gemido/ Do Sol embriagante-lógico. A tentativa de resposta revela uma entrega total às formas, que permitem a transmissão, como propunham os trovadores, de um conteúdo que conjuga palavra, pensamento e música, como em Tremulam as candeias, musicado no raro modo lídio com partitura para voz e acompanhamento da rabeca, inspirado no pergaminho de Vindel, do século XIII. Se a forma da poesia é hoje o verso livre, e o seu tema, a subjetividade confessional, os poemas de Nevoeiro se colocam como uma contraposição. Nesse sentido, o zéjel da poesia de Andalucía ressurge em sua função meditativa no último poema do livro — O último trago / calará o sussurro /de falsos augúrios / dos ventos impuros; — curiosamente, também um aceno ao blasé irônico drummondiano. As travessias são um artifício comum na literatura, especialmente na brasileira, para dar vida a reflexões. Ao se inserir nessa tradição, os poemas de Nevoeiro e suas formas antigas nos transmitem, a cada verso, uma pergunta sincera de um poeta não sobre si, mas sobre o fazer poético.
Sobre o Autor
Carlos Martí é o nome de pena de Carlos Eduardo Marte de Arruda Sampaio, paulistano, formado, como tantos poetas, pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Neto de Plínio de Arruda Sampaio, abraçou, em lugar da política, o espírito antigo das serras, morros e verdes da Mantiqueira de seus antepassados. De um diálogo com o fugere urbem, surge um conflito do poeta com o idílio, explorado em Nevoeiro como uma caminhada entre a beleza e a angústia, em que o pano de fundo da natureza mostra as raízes arraigadas na história da poesia nos seus versos. Sua poesia é mística sem ser hermética, talvez uma herança do lado catalão, o Martí, indevidamente aportuguesado pelas alfândegas e aduanas do Brasil. Tendo realizado turnês na Europa e estudado canto lírico, Martí chegou a compor para a trilha sonora de Duetto (2022), estrelado por Giancarlo Giannini e Marieta Severo. Continuando esse processo, imergiu-se no estudo das letras e da lírica, abandonando a carreira musical para se dedicar exclusivamente à poesia. Em seus versos, a experimentação com formas como a terza rima italiana surgiu desse estudo, dialogando com os tratados antigos e esquecidos sobre a poesia, que instigaram um desafio no poeta ao reinventá-los e reproduzi-los.