Três vezes sete poemas de Albert Giraud
Adaptados para o alemão por Otto Erich Hartleben
Recriados em português por Augusto de Campos
LivroCD - 19 X 29 cm – 64 págs.
SBN 978-65-85570-46-6
Há mais de 100 anos, em 18 de outubro de 1912, estreava em Berlim a composição PIERROT LUNAIRE, de Arnold Schönberg (1874–1951), obra que, juntamente com a SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA, de Igor Stravinsky, é um dos pilares da música moderna e que, no Brasil, é raramente executada e escassamente conhecida. Schönberg compôs sua música a partir de 21 textos do poeta simbolista belga Albert Giraud, adaptados para o alemão por Otto Erich Hartleben. Mas o que ele propôs foi uma nova prática vocal — o Sprechgesang ou cantofalado. Os textos não deveriam ser nem cantados nem recitados. Caberia à intérprete oralizá-los seguindo rigorosamente o ritmo e a melodia marcados na partitura, alteando ou descendo a voz, em distância proporcional à posição das notas, num contexto de ousadas dissonâncias, criadas com poucos instrumentos: piano, violino ou viola, violoncelo, flauta ou flautim, clarineta e clarineta baixo.Vertidos por mim para o português, os textos de PIERROT LUNAIRE foram apresentados em dois espetáculos, no Museu de Arte de São Paulo (1978) e no Festival de Inverno de Campos de Jordão (1980), sob a regência de Ronaldo Bologna, com a soprano Edmar Ferretti como intérprete do cantofalado e um conjunto instrumental formado por músicos da Universidade de São Paulo.
A ideia de traduzir os textos do Pierrot Lunaire me veio em meados de 1950, quando me iniciava no universo musical de Schönberg e de Webern. Reativou-se nos dias acesos do Tropicalismo, em 1968, época em que Júlio Medaglia e eu chegamos a pensar em realizar algumas das “canções” com Gal Costa, num cenário pop art nouveau. Essa “heresia” não se concretizou; mas hoje, depois que a cantora de jazz Cleo Laine interpretou com tanta cursividade o Pierrot, já não parece tão despropositada ou inviável. Eu achava que o “canto-falado” estava abrindo brechas na música popular — Jimi Hendrix, por exemplo, dizendo ritmicamente os seus textos atrás das sonoridades distorcidas das guitarras, ou Gilberto Gil cantofalando “A Voz do Vivo”, de Caetano Veloso — e que era o momento de juntar essas pontas e criar novos curto-circuitos musicais. Do sonho, que não acabou, ficaram as primeiras versões que fiz — cerca de um terço dos 21 poemas que constituem o ciclo do Pierrô Lunar, completadas em 1978 para a apresentação da obra em português. (Augusto de Campos)
Sobre o Autor
Arnold Franz Walter Schoenberg (Viena, 13 de setembro de 1874 — Los Angeles, 13 de julho de 1951) foi o criador do dodecafonismo, um dos mais revolucionários e influentes estilos de composição do século XX. Suas primeiras obras, ainda ligadas à tradição pós-romântica, prenunciavam um método composicional inovador, que evoluiu para a atonalidade e, mais tarde, para um estilo próprio, o dodecafonismo. Schönberg foi também pintor e importante teórico musical, autor de Harmonia e Exercícios Preliminares em Contraponto. O compositor sofria de triscaidecafobia, o medo do número 13. Ironicamente ele nasceu dia 13 de setembro e morreu dia 13 de julho, às 23h47min, 13 minutos antes da meia-noite, numa sexta-feira 13. Primogênito de uma família judaica ortodoxa originária da Hungria, Arnold Schönberg desde cedo entrou em contato com as artes, influenciado por seu tio Fritz Nachod, admirador da poesia e da literatura francesas. Aos oito anos de idade, iniciou sua educação musical com aulas de violino, compondo, nessa época, suas primeiras músicas. Mais tarde, tornou-se autodidata na aprendizagem de piano e violoncelo. Com a morte de seu pai, em 1889, a família Schoenberg passou a enfrentar dificuldades financeiras e Schönberg, para ajudar, tornou-se empregado de um banco, onde trabalhou até 1896. Seu interesse pela arte, entretanto, não diminuiu nesse meio tempo: David Josef Bach, cunhado de seu primo, acompanhava-o em discussões sobre música, filosofia e literatura. Bach encorajou-o a seguir a carreira de músico e despertou-lhe o interesse em buscar ideais artísticos próprios. Em 1894 passou a ter aulas de composição com Alexander von Zemlinsky, referência importante em toda a carreira de Schönberg, e responsável por sua formação teórica e musical, além de ensinar-lhe os princípios gerais de composição. No final do século XIX, começa a dar aulas e a trabalhar em companhias musicais e conservatórios. Data dessa época (mais especificamente de 1899) sua primeira composição de relevo, o sexteto de cordas Verklärte Nacht. Em 1898, converte-se ao luteranismo. Em 1933, depois de deixar a Alemanha devido à ascensão do nazismo ao poder, retorna ao Judaísmo em Paris. Várias de suas obras remetem a temas do Judaísmo, como sua ópera inacabada Moses und Aron, Um sobrevivente de Varsóvia, para recitante, coro e orquestra, e as suas últimas obras, os três coros do opus 50 (Dreimal tausend Jahre - Três vezes mil anos, Salmo 130 e Salmo Moderno n. 1). O segundo desses coros foi dedicado ao Estado de Israel. Ele ainda estava a trabalhar no terceiro deles, quando morreu, e o coro ficou inconcluso. Arnold era fascinado pela numerologia. Este fascínio o perseguiu por toda sua vida, pois ele pensava que poderia saber o futuro através de complexos cálculos numéricos. E estes cálculos o levaram a uma certa obsessão "zagállica" pelo número 13. Arnold tinha nascido em 13 de setembro de 1874 e por conta disso, era perseguido pela ideia constante de que o número 13 estaria diretamente ligado à sua morte. Como os números sete e seis somam 13, Arnold Schonberg resolveu acreditar que ele iria morrer quando fizesse 76 anos de idade. Ao verificar o calendário, Arnold viu horrorizado que o dia 13 de julho cairia numa sexta-feira. Quando aquele fatídico dia chegou, Arnold tentou ludibriar a morte, permanecendo deitado durante todo o dia, para desespero de sua mulher, que não aceitava aquelas "maluquices". Arnold dizia para todos que estava decidido a passar o dia inteiro na cama, de modo a evitar eventuais acidentes. Poucos minutos antes da meia noite, sua esposa foi ao quarto dele para brincar com ele, pois nada de ruim havia acontecido. Ao chegar no quarto, ela encontrou Shonberg deitado. Ele olhou para a esposa e pronunciou apenas "harmonia" e então morreu. A hora de sua morte foi 23h47, 13 minutos antes da meia-noite, numa sexta-feira 13, no seu septuagésimo sexto ano de vida. [com relação a sua morte, tudo consta no Harmonia, com exceção dos "zagallismos".