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Os poemas franceses de Rilke surgiram após um período libertador, nos meses em que o poeta se recuperava da fadiga de um longo trabalho. O fato de uma voz interior lhe ditar versos em francês não é surpreendente se considerarmos que Rilke sempre foi um ardente francófilo. Entre 1902 e 1910, fez de Paris sua base, apaixonado por Cézanne e Rodin, de quem foi por um tempo secretário particular. Admirava Balzac, Baudelaire, Verlaine, havia traduzido Mallarmé, Maurice Guérin, Louise Labbé... A língua de Molière já não tinha mais segredos para ele. Em 1921, quando se mudou para Muzot, descobriu Valéry: “Eu estava sozinho, estava esperando, todo o meu trabalho estava esperando. Um dia li Valéry — sabia que minha espera havia acabado” (escreveu numa carta a Monique Saint-Hélier). O cemitério marinho, no qual trabalhou assiduamente na tradução durante o outono-inverno de 1921-1922, foi o elemento decisivo que favoreceu o florescimento de suas últimas obras-primas em alemão. Escrever em francês foi tudo menos um passatempo para o velho poeta que havia atingido os limites expressivos de sua língua nativa; foi uma forma de honrar a sua profunda dívida para com a França e de homenagear o Valais, na encruzilhada das línguas, que foi o seu asilo e a sua última morada. Como o próprio Rilke confessou a André Gide, foi uma forma de rejuvenescer, de renascer na poesia e na vida, de questionar o visível com um novo olhar, atento à fragilidade das coisas próximas que se oferecem como viático na curva dos caminhos.
Rainer Maria Rilke nasceu em 1875, em Praga, no seio de uma família de origem modesta e conflituosa. Teve uma infância marcada por tensões familiares, estudou em colégios militares e comerciais e abandonou essa trajetória para dedicar-se às letras. Entre 1896 e 1897, em Munique, conheceu Lou Andreas-Salomé, com quem viajou à Rússia e teve contato com Tolstói — experiências decisivas em sua formação espiritual e poética. Casou-se em 1901 com a escultora Clara Westhoff, com quem teve uma filha, Ruth. Viveu em Paris entre 1902 e 1907, trabalhando como secretário de Rodin, e compôs O Livro das Horas (1905) e O Livro de Imagens (1906). Sua vida errante o levou à Itália, à Alemanha e à Escandinávia, enquanto escrevia os Novos Poemas (1907) e os Cadernos de Malte Laurids Brigge (1910). Entre 1911 e 1912, iniciou as Elegias de Duíno, concluídas apenas em 1922, juntamente com os Sonetos a Orfeu. Passou seus últimos anos na Suíça, traduzindo e escrevendo em francês. O presente volume — juntamente com as Quadras de Valais (Cobalto, 2023) e As Rosas, seguido de as janelas e tributos carinhosos à frança (Cobalto, 2025) — compõe a parcela mais importante dos poemas escritos em francês durante os anos que o poeta viveu na suíça. Nele, o leitor encontrará alguns dos temas fundamentais da obra de Rilke, como a proliferação da experiência interior e a sacralização do contato transformador com as coisas. Rilke morreu em 29 de dezembro de 1926, vítima de leucemia, e foi sepultado no cemitério de Rarogne, no Valais, deixando uma das obras mais líricas e espiritualmente intensas da poesia moderna.
